caderno galego-brasileiro
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Tomo emprestado o título de um conhecido artigo de Ricardo Carvalho Calero, onde se critica com acerto a desigualdade lingüística consagrada na constituição espanhola, para a qual falar galego é apenas um direito individual dentro das fronteiras administrativas da Galiza, sendo obrigatório para todos os cidadão do Estado unicamente o conhecimento do espanhol. Pensei muito nesse artigo estes dias, ao constatar que o tímido reconhecimento da realidade lingüística galega não deixa de ser uma inocente peculiaridade regional que quase nem sentimos os nativos e cuja realidade, entre os não nativos, é só perceptível para iniciados. A cooficialidade é assim como uma creche em que o Estado encerrou o galego para deixá-lo brincar ali sozinho de gente (língua) grande. Uma concessão sem maiores perigos. O preço da aculturação já foi pago em termos de invisibilidade social, de inexistência aos efeitos práticos. Parece desânimo, mas não fiquem preocupados não, na realidade estou ganhando em temperança, não quero me enganar confundindo a realidade com o desejo (embora continue pensando que só o desejo pode mudar a realidade). A luta local pelo topônimo galego da galega cidade da Corunha, que ganha novas nuanças nos últimos tempos com a possível punição ao governo municipal por incumprimento da lei, não deixa de ser isso, local, e é uma luta já perdida (irremissivelmente?) no âmbito internacional. Causava-me irritação e hoje apenas uma certa tristeza comprovar que no Brasil, o país com maior número de falantes da nossa língua (ou de mais uma variedade de um antecendente lingüístico comum nascido na Galiza, para não escandalizar ninguém), A Corunha é conhecida como La Coruña, assim mesmo, com "l" e com "ñ". Por esse nome, que aliás o próprio clube exibe com orgulho provinciano, é conhecido o nosso time de futebol, o "Deportivo"; assim é representado na escrita em todas as ocasiões, mesmo em traduções literárias feitas desde o espanhol de textos escritos originariamente em galego. Por exemplo, na versão brasileira d' O Lápis do Carpinteiro, de Manuel Rivas, o doutor De la Barca é preso e quase assassinado no cárcere de La Coruña, apesar de o texto dizer originariamente que foi "na Coruña" onde esses fatos aconteceram.
(Isto das "traduções" dá lugar a fenômenos bem curiosos: o relato de Rivas A lingua das bolboretas, originariamente escrito em galego, dá lugar à tradução espanhola La lengua de las mariposas, que serve de base ao roteiro do filme intitulado do mesmo jeito. Quando se apresenta o filme no Brasil, a (má) tradução desde o espanhol, e desde o absoluto desconhecimento da origem galega (que fica assim oculta num inextricável passado), é A língua das mariposas. Mas as mariposas por estas terras brasileiras são aqueles bichos noturnos que ficam voando ao redor das luzes e não as borboletas de que fala o conto de Rivas. Os intrincados caminhos da tradução de uma língua a si própria são insondáveis...).
Na minha nova documentação brasileira, e apesar de figurar em meus documentos espanhóis exclusivamente o nome oficial do topônimo, em galego, o meu local de nascimento é, ó ironeia!, "La Coruña". Tanta luta, tanta re-descoberta da minha própria língua noutro continente para isto. Manda caralho! Não somos nada, mas não somos nada mesmo! O nome da minha cidade no português do Brasil é igual que em espanhol, a língua que nos dá a conhecer (ou a des-conhecer) pelo mundo afora. Também "Galiza", a única forma galego-portuguesa, é apenas mais uma extravagância própria de filólogos aposentados (que no Brasil são quase todos), pois por estas terras todo o mundo fala só da "Galícia" (e o meu corretor brasileiro de Word marca o erro (?) com um sinuoso traço vermelho, mas isso não importa, o meu corretor não fala). Num primeiro momento vivi de uma forma meio revoltada isso de comprovar como nossas lutas sociais/locais eram tão amplamente desconhecidas. Mesmo para quem devia estar bem informado. Sempre me chamou a atenção o mapa situado nas páginas iniciais da gramática de Cunha e Cintra, onde figuram os territórios peninsulares de língua portuguesa. Ali aparece todo o ocidente peninsular, com os co-dialetos galegos do português representados. Mas nesse mapa esclarecedor os nomes das capitais provinciais galegas se nos oferecem apenas com o nome traduzido ao espanhol, "La Coruña" e "Orense", até nas últimas edições.
Assim poderosa e alongada é a sombra da LÍNGUA OFICIAL (que na Galiza, por se ficava alguma dúvida, é o espanhol).

2003-07-02, 22:17 | 6 comentarios

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Comentarios

1
De: Martin Pawley Fecha: 2003-07-03 00:07

Non sabía eu do tortuoso caminho que leva das bolboretas ás mariposas, pasando polas mariposas...

Non fai falta dicir que comparto ao cen por cen o que dis, claro.



2
De: um português Fecha: 2003-07-03 08:51

Pois é. As duas são oficiais, mas uma é mais oficial do que a outra. E? Parece que os galegos concordam com essa situação. Ou agora não lembramos da democracia?



3
De: Omar Fecha: 2003-07-04 06:08

Amigo português, nem tudo se decide democraticamente. As estatísticas dizem que quando perguntados por mais presença do galego na escola, os galegos estamos maioritariamente de acordo, por exemplo. O passo desde essa convicção até a ação política não é fácil nem direto, e nesse ponto não representamos um caso especialmente peculiar. A situação política (e lingüística, claro) na Galiza só pode ser explicada (e talvez entendida) após observar os mecanismos que os poderes foram utilizando historicamente para nos manter nesta paralisia em que continuamos (com ocasionais movimentos de oposição que alguns lutamos por manter, com os meios de que dispomos).



4
De: EMF Fecha: 2003-07-11 20:37

Unha cousa curiosa: ollando aquí en Madrid unha guia de viaxes para guiris refirinte ó estado espanhol, saía "Galiza" como denominación do patria... e a min, que sempre a escribo tal, extranoume.
Somos uns diglósicos do carallo!, con perdón.



5
De: edivan Fecha: 2007-02-28 23:54

quero sabe meu tradozido



6
De: edivan Fecha: 2007-02-28 23:55

quero saber meu nome tradozido



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