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> Frio tropical <


Aproveitando o final de semana longo que tivemos no Rio estive com MinhAmor na Serra, curtindo um friozinho. Passando frio, na realidade. A só duas horas e meia de carro desde a cidade do Rio dá para esquecer que vivemos num país tropical (mesmo assim abençoado por Deus e bonito por natureza...). Os três graus centígrados da noite na montanha destruíram toda a minha aureola de homem nórdico, acostumado às condições climáticas mais adversas, que tinha lavrado no Rio, e contribuíram decisivamente para uma nova imagem da minha humildérrima pessoa, com o nariz vermelho fungando e nacos de lenços de papel meio desintegrados na mão. Devo dizer, porém, que os habitantes da serra (e os construtores de casas na serra), sem dúvida convencidos também de que vivem num país tropical, esqueceram instalar qualquer sistema de aquecimento naquelas geladeiras com telhado. Assim longe chegam as ilusões identitárias construídas pelos Estados-Nação. Também Espanha é um país mediterrâneo mesmo para quem só conhecemos as gélidas águas do norte do Atlântico. Mas a adaptação climática, passados os primeiros momentos de choque e desconcerto, foi rápida. Até tomei banho de cachoeira nas geladas águas do Encontro dos Rios. Rapidamente, mas tomei. Foi cair e sair, com uma dor pungente no peito e na testa. O astral da beira do rio, aliás, era totalmente carioca. Um quiosque de madeira, umas mesas e cadeiras de metal espalhadas na margem esquerda da corrente e muita cerveja gelada para tomar ao sol. Com música muita alta, quebrando o barulho constante das águas que batiam nas rochas do leito do rio. Mas bem selecionada, felizmente. Luís Melodia, Cassia Eller, Titãs...



Este urbanita europeu também descobriu finalmente a mandioca, a planta, porque até então só conhecia os seus produtos no prato. Um pequeno arbusto de caule fina com tubérculos enormes baixo a terra. Poucos pés, apenas cinco ou seis, rendem vários quilos de aipim. E na casa da tia Helena comi o melhor aipim frito da minha vida, bem crocante por fora e macio, desmanchando na boca, por dentro. Uma delícia simples e prodigiosa.
Faltou apenas ver na noite estrelada (ou estrelecida, como dizia o clássico) as Nuvens de Magalhães, que procurei no céu e não achei. Talvez alguma noite na praia consiga, com o auxílio do mapa que ganhei do meu amigo o Martin Pawley, que tem o saudável costume de olhar pra cima.

2003-06-25, 10:26 | 4 comentarios

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Comentarios

1
De: Polinesio Fecha: 2003-06-25 22:29

Experimentei também essa estranha sensação nas montanhas do interior de Santa Catarina, com três diferenças: 1. Vi neve. 2. As casas tinham aquecimento 3. As pessoas daquelas vilas eram de origem alemã, o que, pensando que estava no Brasil, fazia
ainda mais esquisita a estadia na serra.
Saudações,



2
De: Omar Fecha: 2003-06-26 23:38

Pois é. Em Nova Friburgo, cujo nome já diz tudo, tem muitas casas de estilo alemão, com o telhado pontudo. E pessoas das origens mais diversas. Este país é um mundo.



3
De: Martin Pawley Fecha: 2003-06-27 07:48

Meu Deus, Omar, vou ter que acabar indo por alí para lhe sinalar as Nuvens de Magalhães co dedo!!!



4
De: Esteban Fecha: 2003-07-11 11:48

+5 graos en Santiago (Compostela cabe clarexar) ou en Pontevedra son un inferno teso comparado coa frescura lixeira duns -5 graos en Reykjavik, Terra do Xeo, onde levo dous anos e meio e pouco me queda.

Habia que romper todos os termometros do mundo, que o frio e outra cousa. E como outras _outras cousas_, o mellor frio faise na Terra.



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