caderno galego-brasileiro
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Meses atrás escrevi este texto, após ouvir no jornal da Globo que os espanhóis estavam de boas notícias, o petróleo do Prestige tinha solidificado no fundo do oceano. Assim se cumpria uma das mentiras do governo espanhol, construindo, pelo menos na distância (e para quem não tiver outros meios de informação) uma realidade paralela, onde a catástrofe nunca teria acontecido. Na Galiza o petróleo sujava rochas e praias, era viscoso e fedia, mais ainda do que as mentiras. Mexido e ingênuo, enviei o texto a alguns jornais brasileiros, que não o publicaram. É normal, precisava de um contexto. Agora publico-o aqui, onde os contextos são desnecessários.



Quando a maré (negra) encher.
Naufrágio do 'Prestige'

Assim como o senhor Sinbad escrevia a palavra "fogo" com tinta vermelha e achegava depois as mãos para se esquentar nas frias noites de inverno, segundo nos conta Al-Faris Ibn Iaquim Al Galizi, assim também quero eu escrever a palavra mar em azul para você, leitor, deixar vagar a vista e sentir a profunda maresia nas narinas e o estrondo das ondas contra as rochas atlânticas da Galiza. Como é bom sentir o mar, sentir-se mar, corpo marinho sem limites, presença viva...
Dias após o desastre uma maré negra continua a tingir o litoral galego, enquanto os holofotes da informação já se dirigem, com a rapidez do consumo imediato, a outras costas do mundo. O 'Prestige' continua a vazar a sua carga nas profundidades do mar, sendo todas as barreiras insuficientes, simples operação de maquiagem ante a opinião internacional, sendo todos os consolos tardios, as compensações poucas, as explicações inexistentes. Não fosse eu galego e não estaria escrevendo estas linhas. Não tivesse eu cravado na memória o 'Aegean Sea', petroleiro que semeou morte na costa da Corunha, não tivesse eu manchadas minhas mãos de criança na areia preta do 'Urquiola', e talvez até acreditaria piamente no azar, como num deus maldito, e nas imensuráveis forças desatadas da natureza perante as quais só resta claudicar.
Alguém teria que explicar por quê esta ponta da Europa, por onde passam cada dia mais de cem barcos carregando materiais perigosos, não possui os equipamentos necessários para evitar as catástrofes —que, aliás, se repetem ciclicamente mais ou menos a cada cinco anos. Devemos saber quem teve a infeliz idéia de encerrar o barco mar adentro (dizia Manoel-Antonio, poeta galego da década de 20, que o mar adentro é uma ilha rodeada de céu por todas as partes), quando uma solução viável seria levá-lo até um porto próximo para ali aspirar o petróleo dos tanques, segundo técnicos que foram consultados a posteriori. Devemos saber por quê não se formou na hora um comitê de emergência para gerir a crise. Alguém deveria nos dizer onde estavam as autoridades (im)competentes durante toda a semana em que o 'Prestige', petroleiro com bandeira de conveniência e que por não possuir condições de segurança é impedido de passar por certas costas, bomba carregada do terrorismo neoliberal, ameaçava com naufragar frente ao litoral galego. Ou melhor, eu digo. O presidente espanhol, José Maria Aznar, viajando.O presidente galego, Manuel Fraga, antigo ministro de Franco, caçando. Com seu conselheiro de Meio Ambiente, na serra de Madri. A nossa história é um sainete. Parece piada mesmo, mas o conto é triste. A maioria dos galegos, valorando sobre todas as coisas a "capacidade de influência", gosta de votar em quem manda, para continuar mandando.É irônico que o presidente galego fosse escolhido precisamente pelo seu "prestígio", por estar desde sempre no lado em que se manejam os fios. Prestígio podre, como um ídolo que guardasse na barriga cadáveres descompostos.
E ainda mais, à incompetência inicial une-se a ocultação, a manipulação informativa, a estratégia do "nada acontece", do "tudo está sob controle", mesmo quando as conseqüências do desastre são evidentes para quem tiver olhos e quiser ver. O governo espanhol, que Fraga batizou como "governo amigo", declarou recentemente que, de qualquer maneira, a pesca não é um setor prioritário na Galiza —onde, simplesmente, é atividade econômica básica. Como também não era prioritário o setor lácteo, e hoje os camponeses são multados quando superam a taxa de produção permitida pelo Mercado Europeu.Na realidade, suspeito, é a Galiza que não é prioritária, e por aí vai...
Mas não vou cair no desconsolo. Mais de duzentas mil pessoas manifestavam no domingo passado em Santiago de Compostela a sua indignação e faziam público o seu desejo de habitarem com dignidade o finisterrae ibérico, exigindo um pouco mais de interesse e bom senso para estes desastres não se repetirem. E eu, na distância, com eles. É preciso o velho Sinbad continuar navegando. Por isso agora quero apenas devolver ao mar o seu azul. E saber que é possível.

E hoje, quase seis meses depois, o buque continua vazando petróleo (ainda 2 toneladas diárias?), que chega em pequenas quantidades dispersas às nossas costas (onde voluntários estiveram limpando, e ainda limpam, durante meses) e chega à Bretanha francesa. Mas o pior é que os responsáveis políticos da incompetência que provocou o desastre continuam ocupando os seus cargos. O pior é que se acontecesse amanhã um acidente das mesmas características, o litoral galego ficaria igualmente indefesso. Nenhum investimento foi feito, nem está previsto, para evitar o desastre. Amigos caracoleiros, na próxima assembléia de Nunca Mais haveria que insistir na necessidade de uma campanha neste sentido. Coincidindo com as eleições municipais? Melhor. Se acontecesse amanhã, fariam tudo igual. Os caras que nos governam são um perigo público. Dirão que a plataforma está fazendo política. Pois é. Da legítima e genuína.

2003-05-08, 08:50 | 4 comentarios

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Comentarios

1
De: Martin Pawley Fecha: 2003-05-08 09:28

Mal fixeron en non publicarlhe o texto, a verdade.

Os caras que nos gobernan non só din que a Plataforma está facendo política (como se iso fose malo, cousa curiosa vindo da boca dun político), senón que ousan dicir que perdeu capacidade de convocatoria. Na manifestación do domingo pasado en Santiago o proprio Jesús Palmou non veu máis de dez mil manifeirantes, na mesma praza do Obradoiro na que a policía local, que tampouco soe ser moi xenerosa botando contas, contou máis de corenta mil. Para que se entenda como funcionan as conexións neuronais deste tipo, permítome lembrar que el é dos que dixo varias veces que ter levado o barco a porto estragando uns kilómetros de costa tería sido "unha catástrofe": a súa medida foi moito máis eficaz, ao conseguir estender o desastre ao longo duns centos de kilómetros, multiplicando a desfeita nun factor cen. Así que xa ven vostedes que o de Palmou non son precisamente as contas.



2
De: Omar Fecha: 2003-05-09 08:33

A Palmou tocou-lhe dançar com a mais feia. É o que tem ser profissional da política, sobretudo num partido tao "coesionado" como o PP. Que nao dá para se afastar do caminho, mesmo fazendo o ridículo.



3
De: ivan Fecha: 2003-05-09 09:35

o unico que nos queda e ir o vindeiro 14 de xuño a Bruselas a "manifeirarnos", ainda que por moitos/as que vaian a cifra oficial non pasara de 10500.
P.D:dependendo do que suceda nas eleccions do dia 25 pensaremos se retornar de bruselas ou quedar ali



4
De: Martin Pawley Fecha: 2003-05-09 09:43

En Bruselas ficará vostede, Iván. Postos a emigrar, eu prefiro o Posto 9...



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