Em Madri-Barajas. Um aeroporto não é lugar pra chegar ou ir embora, é apenas um parêntese entre deslocamentos, um espaço morto cheio de gente consumida pela espera, diminuída pelo tempo, com esta cara chateada. Eu sabia, meus avôs, meus pais, meus tios sabiam que chegaria longe, e cheguei mesmo. Os caminhos da vida levaram-me ao Rio. Estou no interregno entre a minha casa e a minha casa. A vontade de aprofundar nas raízes fez-me sair pelo outro lado do Globo. Fiz uma viagem interior que me lançou no espaço exterior, e que matou em mim qualquer confiança no valor das classificações dicotômicas. Contam os velhos que sob a Cubela, na Corunha, flui um Rio enterrado. Era só ficar parado e dava pra sentir os pés úmidos. Sempre fui carioca e eu nem sabia. É uma complicação gozosa, podem acreditar, carregar esta duplicidade, falar e escrever uma língua mestiça, rebúmbio tupiniquim ou surubada céltica, desarrumada, viver um eterno desacordo entre a mão direita e a mão esquerda, que não se entendem, em ambos os hemisférios à vez, em cima do muro. Mas habitar a fronteira talvez seja a melhor forma de a fazer desaparecer. E agora estou com vontade é de ser não apenas duplo, mas múltiplo, de malfalar todas as línguas em hemisférios que nem existem, talvez no terceiro, ou no quarto. Como diriam alguns na atribulada Galiza, em
ámbolos três hemisférios. Enfim, o que eu quero mesmo é ser como
O mar, que chega em todas as praias.
No sovaco de cristo, no Rio. O nosso vizinho, Tom Jobim, fez esta música prá gente (pra mim e pra ela, e também pra vós).
Corcovado
Tom Jobim
....
Num cantinho um violão
Este amor, uma canção
Prá fazer feliz a quem se ama
Muita calma prá pensar
E ter tempo prá sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo!
Quero a vida sempre assim
Com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você eu conheci
O que é felicidade
Meu amor.
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