caderno galego-brasileiro
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Já foi aprovada pela Academia Galega uma revisão das normas ortográficas e morfológicas do galego e quase nem tive tempo de acompanhar as reações que causou na sociedade (se realmente teve algum efeito reconhecível) ou os comentários que levantou, com exceção dos que realizou o incontornável Martin Pawley, que leio assiduamente. Aliás, em um dos comentários até me chama à guerra, pedindo-me para falar de beirarrúas e de romaneses, ou de beirarrúas romanesas ou algum coisa do estilo.
Lendo a tábua de mudanças da norma fico imaginando o processo de negociação entre lingüistas como uma cena meio maluca. Não sei porquê (isto é figura retórica, sei perfeitamente porquê), lembro um anúncio publicitário que passou algum tempo atrás nas televisões espanholas, de um jogo de mesa que consistia em ir somando palavras de determinados campos lexicais. Na cena final, um tipo sai da casa dos amigos com quem tinha estado jogando, rabugento, ofendido, agarrando fortemente a caixa do jogo contra o peito. Atrás, na porta da casa, os amigos desesperados dizem com voz consentidora: "Tá bom! Admitimos polvo como bicho de estimação...!" Tenho a impressão (como sou delicado, meu deus!) de que alguma coisa do estilo deve ter-se passado. Na realidade, sempre é assim, qualquer negociação com os donos do jogo supõe ter presente que os tipos podem se levantar e ir embora e nos deixar como estávamos, ou pior, já sem qualquer esperança de alguma coisa mudar. E a questão da norma lingüística sempre foi uma questão de poder. A reforma da norma do galego permite a um grupo significativo de pessoas vinculadas à cultura se situar dentro da "legalidade" sem perder a vergonha da cara. Assim, quando a reforma diz "Galiza considérase forma galega [ainda bem!], documentada na época medieval e recuperada no galego contemporáneo" ou "Considéranse admisibles tanto –ble como –bel" para os adjetivos, muitos galegos se sentem menos constrangidos pelo uso da chamada "normativa oficial". É alguma coisa, pelo menos (e pelo menos também o famoso "alomenos" ficou fora da norma).
Mas o debate normativo ultrapassa significativamente esta questão. Preocupa que alguns falem em "Pax Lingüística", até porque como referência à histórica "Pax Romana" alude a uma situação de dominação imperial sem espaço para oposição ou resistência. Que jornais galegos falem em "acordo ortográfico" quando a questão gráfica permanece intocada, não nos deve causar espanto. Pode ser maliciosa ignorância ou ignorância apenas.
O problema é que, na realidade, não houve debate de fundo e que essa possibilidade de debate foi furtada à sociedade, que alguma coisa terá pra dizer sobre isto da língua. Qualquer discussão torna-se impossível se não se admite que o problema da representação escrita de uma língua que sobreviveu durante séculos num estágio de oralidade não é algo tangencial, muito pelo contrário, está no centro do conflito lingüístico que se vive na Galiza. Não aceitar isto tão simples é promover as ficções de que falávamos dias atrás. E nesse sentido, a construção de uma língua-padrão eqüidistante do espanhol e do português não deixa de ser uma ficção. E aí entram todas as arbitrariedades que Martin Pawley comentava em seu blog. O galego oral falado durante séculos por camponeses e marinheiros à margem da língua oficial não tinha uma palavra para designar a calçada por onde andam os pedestres, até porque o asfalto demorou a chegar nas aldeias galegas (diga-se de passagem que quando chegou tomou conta de tudo, os especuladores difundindo a idéia de que o progresso se mede apenas em toneladas de asfalto). Onde não existe a coisa não existe também a palavra que a designa, é claro. Neste caso, com a coisa chegou a palavra espanhola "acera". O processo de criação de palavras por composição para designar realidades do mundo moderno é habitual nas línguas africanas que alcançaram algum reconhecimento oficial após a descolonização. Assim, por exemplo, em swahili o avião passou a se chamar ndege ulaya, que significa 'pássaro europeu', substituindo a palavra inglesa. Mas era necessário realmente inventar uma palavra por composição como "beirarrúa" para substituir a "acera" espanhola, como se o galego estivesse sozinho no mundo? Não existiam calçadas (ou passeios) no Brasil ou em Portugal? E o que dizer do gentílico romanés, criado exclusivamente para evitar coincidências com o espanhol rumano e o português romeno? Era necessário apenas porque a arbitrariedade dá aos donos do jogo um poder absoluto sobre o próprio invento. Aos efeitos práticos, não é importante conhecer o galego para entrar na administração pública, é suficiente com conhecer os meandros das convenções normativas de ontem ou de anteontem. De fato, acaba se fazendo necessário "desconhecer o galego" para ter um apurado domínio da letra pequena da norma. Sei do que falo. Para sobreviver, dei aulas de língua galega para pessoas que queriam fazer concurso público na Galiza e me deparei com a norma e com seu uso mais perverso. Esse uso policial é uma cruel ironia e um triste destino para o galego, caso insólito de privatização de uma língua popular.
De um lado, a visão estreita do processo de construção nacional, ao pretender construir uma língua particular para a Galiza (na equação, que aliás realizam sistematicamente os Estados, "uma língua - uma nação"), vê não apenas no espanhol mas também no português uma ameaça. Doutro lado, o processo de construção nacional inconcluso, que tem o seu limite no regime autonômico da nação espanhola, dá finalmente nisso, uma nação "regional" e uma língua "regional". Duas ficções pouco prestigiadas que pouco têm a fazer frente a outras ficções bem mais poderosas. Neste sentido diz Einar Haugen (num artigo intitulado "Dialeto, Língua, Nação"):

"A aceitação da norma, mesmo por um grupo pequeno mas influente, é parte da vida da língua. Qualquer aprendizado requer o empenho de tempo e esforço, e deve de algum modo contribuir para o bem-estar dos aprendizes, para que não queiram cabular as aulas. Uma língua-padrão que é o instrumento de uma autoridade, como um governo, pode oferecer a seus usuários recompensas materiais na forma de poder e posição. A que é instrumento de uma confraria religiosa, como uma igreja, pode também oferecer a seus usuários recompensas no futuro. As línguas nacionais têm oferecido o acesso ao título de membro de uma nação, uma identidade que dá à pessoa o ingresso num tipo novo de grupo, que não é apenas parentesco, governo ou religião, mas uma mistura inédita e peculiarmente moderna dos três. O tipo de importância atribuída a uma língua neste contexto tem pouco a ver com seu valor enquanto instrumento de pensamento ou persuasão. É primordialmente simbólico, uma questão do prestígio (ou falta do prestígio) que se prende a formas ou variedades específicas de língua em virtude da identificação do status social de seus usuários. O domínio da língua-padrão terá naturalmente um valor mais alto se ele permitir à pessoa ingressar no concílio dos poderosos. Do contrário, o estímulo para aprendê-la, exceto talvez passivamente, pode ser muito baixo" (grifo meu).

Embora na Galiza os poderosos falam espanhol até quando "falam galego", como todos sabemos, o conhecimento da língua-padrão galega construída permite participar em alguns dos seus rituais e abre as portas para o ingresso numa peculiar confraria onde é possível conseguir recompensas materiais e alcançar posição social. Não podemos mais pensar que conseguiremos acabar com os modelos de dominação lingüística que combatemos na Galiza percorrendo à revelia esses velhos caminhos. Por isso é que se faz necessário e urgente descobrir, inventar outros caminhos que não passem por aí. A minha intuição me diz que o que se impõe realmente como necessidade não é comprarmos o jogo, mas destruí-lo. No caso do galego, iniciarmos a destruição das fronteiras lingüísticas que nos impuseram não me parece mal começo.

2003-07-22, 12:12 | 7 comentarios

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Comentarios

1
De: EMF Fecha: 2003-07-22 19:10

Moi bó post, coma sempre. Só un detalle: onde dis que os xornais teñen unha "maliciosa ignorância" sobor da cuestión da lingua... eu quitaría o de ignorância.



2
De: Martin Pawley Fecha: 2003-07-23 08:43

Na Galiza, os poderosos falan español até cando falan en galego, e o resto de cidadáns fala galego até cando fala español...
O mais curioso da reforma normativa é a sorprendente felicidade coa que foi acolhida por case todas as instancias. Se un le a prensa oficial, pero tamén a que non o é, ten a sensación de que todo fica xa resolto para sempre, que vivimos no melhor país do mundo e que lingüisticamente falando xa chegamos a onde tinhamos que chegar. Organizacións como a Mesa comprometéronse xa a renderlhe á nova normativa respeito e obediencia. Deduzo que para moita xente o problema era ben cativinho e se resolvía cambiando un "ble" por un "bel", e con catro cousas semelhantes. O problema non estaba, pois, en abrir a lingua a un par de centos de milhóns máis de falantes e leitores, senón que era unha pura batalha de filólogos, debatendo onde ponher "cio" e onde ponher "zo". E digo eu, para esta viaxe facía falta tanta bagaxe?
É certo que as reformas introducidas conforman unha normativa menos mala que a anterior, pero ao tempo é fácil sospeitar que este tema fica xa fechado e que non se van dar novos pasos significativos ao longo dos próximos anos. É dicir, que estamos onde estabamos, igual de lonxe.



3
De: Omar Fecha: 2003-07-29 05:26


Não me parece estranho que a AS-PG ou a Associação de escritores em língua galega ou ANT tenham saudado o acordo normativo com alegria. A situação era realmente absurda, com os principais e mais constantes utentes da língua afastados da oficialidade. A questão da legalidade da norma é mais importante do que pode parecer inicialmente. Simplesmente, um semanário como ANT, o único escrito integralmente em galego, ficava fora dos subsídios que a Xunta oferece a publicações em galego por não se ajustar perfeitamente à norma oficial. O mesmo com livros que usavam formas "extravagantes" como "Galiza" ou "posíbel". Todos conhecemos casos parecidos, como o de um professor-escritor que opta a uma bolsa da Xunta e que é excluído por não ter "nada publicado em galego" (por estarem as publicações do homem em outras normas que não a oficial, que se chama assim porque foi aprovada por Decreto pelo governo galego). A confusão entre norma e língua é especialmente grave no nosso caso. E o bom da mini-reforma é que pelo menos abandona algumas restrições, o rigor purista é sempre pernicioso, para o galego é simplesmente suicida. Mas a questão de fundo permanece aberta. E tenho certeza de que não vai se resolver com este governo. A nossa questão lingüística exige abertura de mente, imaginação e vontade política, tudo de que carece o PP.



4
De: Martin Pawley Fecha: 2003-07-29 05:42

Certo, Omar, pero ségueme resultando chocante. Unha cousa é que se saúden con ledicia os cambios, porque é melhor iso que nada, e outra caer en estranhos triunfalismos. O paso dado está ben, pero só iso, un paso.

Ou será quizá que o que querían moitos deles era simplesmente que se aprobase esta norma, que era a que xa vinhan usando? Non se lhes poderá aplicar tamén a eles o contido do seu post? Non segue sendo a lingua unha cuestión de poder, e posto que agora tamén eles forman parte del, xa se conforman?



5
De: Omar Fecha: 2003-07-29 07:11

Pois é... Pelo que eu sei, até alguns dos que participaram das negociações não se conformam não. Mas que ficaram felizes por poderem pegar uma parte do bolo, disso não tenha dúvida.



6
De: Martin Pawley Fecha: 2003-07-30 09:57

Ben, Omar, pero xa sabemos que você ten contacto con rencorosos e resentidos que nin sequera saben ponher en buen gallego a letra do noso himno... Pero, alén duns poucos, sigo pensando que hai moitos encantados de pasar a formar parte do reparto, e que non tinhan nin terán nunca desexos de ver máis lonxe. Co cal, e pensando a longo prazo, quizá poidamos dicir aquilo de antes estabamos ao borde do abismo, pero agora temos dado un paso ao frente...



7
De: Un gallego Fecha: 2003-11-01 04:29

Quisiera dejarle un comentario a Martin Pawley:

"Na Galiza, os poderosos falan español até cando falan en galego, e o resto de cidadáns fala galego até cando fala español..."M.P.

Quiizas la eleccion sea al gusto de cada uno, yo hablo castellano y te seguro que no soy rico ni poderoso.





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